Na semana passada o futebol brasileiro "comemorou" o aniversário de um ano do 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo, para muitos o maior vexame da história do futebol brasileiro. Na minha opinião, pode ter sido uma tragédia futebolística, mas não o maior vexame. Nas Olimpíadas de 1996, em Atlanta nos EUA, o futebol protagonizou uma das cenas mais patéticas da história dos Jogos. Não pelo resultado, mas pela questão moral. Se Vanderlei Cordeiro de Lima, como mostramos aqui na última edição da nossa Memória Olímpica deu um exemplo de esportividade, o futebol da CBF fez o caminho oposto.
O futebol brasileiro vivia o melhor momento pós-Pelé. Depois de 24 anos, a seleção conquistava o tetra nos EUA e via uma geração muito promissora nascendo, capitaneada pelo menino Ronaldo Nazário de Lima, ou simplesmente Ronaldinho. Dida, Zé Maria, Roberto Carlos, Flávio Conceição, Amaral, Juninho Paulista eram outros jovens que faziam parte do elenco que voltava a terra do Tio Sam para buscar o inédito ouro olímpico, único título que faltava (e ainda falta) na galeria. Pelo regulamento da competição, é permitido a convocação de três jogadores acima dos 23 anos. Aldair e Bebeto, que fizeram parte do elenco tetra-campeão dois anos antes, juntaram-se a Rivaldo para reforçar a seleção.
Pouco antes do início dos jogos, uma transação chamou a atenção do mundo. Ronaldinho, com apenas 19 anos, deixava o PSV e iria para o Barcelona por 20 milhões de dólares, a segunda maior transferência em valor até então (Perdia apenas para a contratação de Alan Shearer pelo Newcastle, por 23 milhões). O debate esportivo era se Ronaldinho valia todo aquele investimento. Durante os jogos, mostrou que sim. Com boa parceiria com Bebeto, o fazia por merecer seu novo apelido, de Fenômeno, com grandes jogadas e gols maravilhosos.
Até que chegou a semi-final contra a Nigéria. Flavio Conceição abriu o placar em cobrança de falta. Em chute cruzado, Babayaro contou com o desvio de Roberto Carolos para empatar para os africanos. Após suas arrancadas caracteríticas, Ronaldinho finalizou, o goleiro deu rebote e Bebeto completou para o gol colocando o Brasil novamente em vantagem. Em linda jogada, Flávio Conceição fez o terceiro, tudo isso ainda no primeiro tempo. No segundo tempo o Brasil perdia gol atrás de gol. Dida defendeu um penalti. A final parecia próxima. Só parecia. Depois de Rivaldo perder a bola infantilmente no meio campo a Nigéria diminui e voltou para o jogo. E em cobrança de lateral a bola ficou ao pés de Kanu, que fez uma embaixadinha para empatar aos 45 do segundo tempo e levar o jogo para a prorrogação. E no gol de ouro, Kanu, novamente ele, fintou o zagueiro e encerrou ali o sonho do ouro do futebol brasileiro.
Ah, mas perder em uma prorrogação numa semi-final não é pior que ser atropelado em casa como fomos para a Alemanha. De fato, em campo, a tragédia foi menor. Vale lembrar que aquele seleção da Nigéria colocou diversos jogadores que fizeram relativo sucesso no futebol europeu, como o próprio Kanu, Ockocha e Babayaro. O vexame veio na conquista do bronze. Não pela medalha em si, tão celebrada em diversos esportes (e com razão, pela falta de apoio e patrocinadores na maioria deles). Os dirigentes da CBF (então presidida por Ricardo Teixeira) inventaram uma desculpa qualquer e pediram para receber a medalha logo depois do confronto com Portugal, sem esperar a final entre Nigéria e Argentina, quebrando o protocolo olímpico. O pódio ficou incompleto, somente com o campeão e vice, pois o Brasil se julgou importante demais para mostrar esportividade. O futebol brasileiro mostrou sua arrogância, mostrou que não sabia perder. Era o princípio para teorias da conspiração que apareceriam sempre que uma derrota ocorresse, pois, como não sabia perder, não admitia o adversário merecia mais a vitória, precisava encontrar desculpas para seu fracasso. Um vexame moral. Nesse dia sim, deu vergonha de torcer para a seleção brasileira. Falta de esportividade que houve novamente em Pequim 2008, com os jogadores atendendo celular no pódio.
Essa arrogância ainda se perpetua no futebol brasileiro. Como estamos vendo no noticiário da CBF, não aprendemos com as derrotas e vexames já realizados. O futebol penta-campeão do mundo é líder também em vergonhas olímpicas. Que nas Olimpíadas do próximo ano, no Rio, se no futebol masculino o ouro não vier, que a derrota seja somente em campo. Que os jogadores e dirigentes se inspirem no exemplo da semana passada, de Vanderlei Cordeiro de Lima e mostrem o verdadeiro espírito dos jogos.
Confira as edições anteriores do Memória Olímpica:
#6 - Bronze no pódio, ouro no espírito




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