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PERDIDO NA SELVA

Campeão Estadual, Leão cearense acumula constantes fracassos
na tentativa de acesso para a Série B

Por Marquinhos Souza
Aracati-CE

Talvez nem o mais pessimista torcedor do Fortaleza tenha imaginado que, após o rebaixamento para a Série C, em 2009, tão cedo o parâmetro não fosse mudar. Apelidada de inferno, pelos diversos clubes que a disputam, a terceira divisão deixa marcas em todos os que nela passam. Para os que ainda estão, a experiência é traumática. Considerado um dos maiores clubes do Estado, detentor de grandes histórias e incontáveis conquistas, o Tricolor do Pici carrega nas costas o peso de sucessivas eliminações. Entre as 7 últimas, 3 em casa, nos braços – e lágrimas – de sua torcida. Campeão cearense de 2015, a expectativa era que dessa vez, o quadro seria diferente, mas tudo não passou de expectativa e o anseio por uma divisão melhor volta novamente a ser sentindo pelos mais de 1,5 milhão de torcedores (segundo pesquisa Ibope/2014) apaixonados pelo Leão, que mais parece estar perdido na selva.

Para tentar diagnosticar a situação vivida pelo Fortaleza, conversamos com a equipe do Amor ao Fortaleza, um dos maiores grupos de mídia relacionado ao time. Apaixonados pelo clube, eles dedicam todo o seu tempo repassando notícias para a torcida e fazendo a ligação entre torcida/equipe. No papo, tentamos encontrar de quem seria a culpa desses seguidos fracassos, analisar os prejuízos causados pela Série C, avaliar o papel da torcida nesse período e, o principal, indicar caminhos para um possível acesso que, se depender deles, já seria na próxima temporada.


Imagem: VT Comercial Leões do Pici

O CULPADO

É sempre difícil achar um culpado em tempos de crise, principalmente, numa situação onde o mesmo problema vem ocorrendo há muito tempo. Os mais supersticiosos apelaram para colocar a culpa em mosaicos, alguns críticos lamentaram a falta de variação tática do até então treinador Marcelo Chamusca, que teve sua saída confirmada em coletiva na última terça (20/10). Mas o fato é que o principal no futebol não aconteceu, o gol. Sem a alteração no placar, mais um ano na Série C. A opinião do João Victtor (17, estudante e sócio do clube), passa pela falta de finalizações: “Passamos o campeonato todo sem ter bons atacantes, nossos artilheiros eram os meio-campistas. Esperávamos muito por eles nos jogos decisivos. Infelizmente, Everton e Daniel Sobralense fizeram um jogo apagado. O nosso centroavante também não acrescentou em nada.  Erramos em não ter um camisa 9 que colocasse a bola pra dentro.” Lamenta o tricolor. Se o ataque não funcionou na decisão, a responsabilidade cai também na diretoria, que formou o elenco. João Breno Santos (18, estudante) preferiu dividir a culpa de mais uma tentativa de acesso fracassada: “Cada um tem sua parcela de culpa. Diretoria, comissão técnica e jogadores. Não tem um só culpado. Mas o maior erro foi em não ter feito gols fora”.

Ex-treinador Marcelo Chamusca. Imagem: Bruno Gomes - Agência Diário do Nordeste

OS PREJUÍZOS

Os prejuízos de uma terceira divisão vão além dos aspectos morais de um clube mas afeta, sobretudo, o cofre da instituição. É impossível listar o quanto o Tricolor deixou de arrecadar. Pela situação, o acadêmico de administração Ian Freire (21), projeta um futuro bem desmotivador: “Sem dúvidas, financeiramente falando, o prejuízo para um grande clube como o Fortaleza chega a ser incalculável. Patrocínios, cotas, rendas, visibilidade nacional... Meu clube precisa recuperar todo esse prestígio, ou então o destino vai ser o esquecimento.” Responsável por 17% da renda do Fortaleza em 2014, o Sócio Torcedor chegou, antes do decisivo e traumático jogo contra o Brasil de Pelotas-RS a marca de 10 mil sócios. Número considerável de adesões, mas que, com a permanência na Série C, deve estancar.

Torcedores lamentam derrota. Imagem: Bruno Gomes - Agência Diário do Nordeste

TORCIDA TÃO LEAL

Se o time não corresponde em campo, nas arquibancadas o Tricolor do Pici parece estar na divisão de elite do futebol nacional. Sempre com um espetáculo, a torcida do Fortaleza tem a maior média de pagantes da Série C, e supera até Vasco e Santos. Com uma média de 10.783 pagantes, a maior na terceira divisão, e a 15ª geral entre as três principais séries do Brasileirão, é grande a tristeza por mais um ano na Terceira divisão. A análise de Pedro Lucas (18), estudante de Psicologia, é de um quadro negativo, ao menos no início do ano: “Em relação a torcida, vai começar o ano desacreditada, mas vai apoiar, como todo ano. Nos últimos anos de Série C, a gente teve as maiores médias de público do ano. Apesar de ter mudado de direção, foi mais um fracasso e isso desanima. Vamos para o jogo do acesso já pensando no pior. A torcida vai apoiar, mas vai ser um momento difícil.” 

Torcida do Fortaleza fazendo a festa na Arena Castelão.

E AGORA?

O acesso não veio, mas como todo ano, ficaram as lições. Entre as dúvidas, o Fortaleza tem agora o desafio de buscar um treinador que leve o clube ao tão sonhado acesso, mas pela boa campanha nessa temporada, para Hiago Marques (18, estudante) alguns pontos devem ser mantidos: “Durante todos esses anos de Série C, tivemos diferentes presidentes, diretores, treinadores, jogadores, mas o sucesso não veio. Em 2016 devemos fazer um trabalho parecido com o que foi feito esse ano, tentar trazer o torcedor de volta ao clube e trazer jogadores identificados com o time. É trabalho da diretoria olhar um por um e trazer jogadores que tenham experiência em decisões.” Se a necessidade de formar um bom elenco é novamente colocada como prioridade, um bom cofre é essencial para que isso aconteça. João Victtor foi enfático: “A torcida tem que aderir aos planos de Sócio Torcedor, tenho certeza que com dinheiro no caixa a diretoria irá formar um elenco muito forte para a gente brigar pelo bicampeonato, fazer boas campanhas na Copa do Nordeste e Copa do Brasil e conseguir o tão esperado acesso para a Série B.”

Jogadores posam para foto antes do jogo com o Macaé, que impediu o acesso tricolor, em 2014.

Confiança inspirada em um passado glorioso. Interrogações motivadas por um presente constrangedor. Altos e baixos de um clube que chegou no topo do estado em 2015, mas perdeu a oportunidade de ganhar o Brasil. Um Leão que rugia alto, durante décadas, mas parece ter calado. O rei perdido na selva que adia, para a próxima temporada, a oportunidade de se reencontrar.


Agradecimentos:
Equipe Amor ao Fortaleza
Hiago Marques 
Ian Freire
Pedro Lucas
João Victtor
João Breno Santos

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